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positivosim@gmail.com Sou um cara normal, que contraiu o HIV em uma relação homossexual monogâmica (ao menos da minha parte). O resto vai ser postado aqui nesse blog...
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Na Sala de Espera

Escrevo agora a minha intenção no post anterior.

Quando as consultas médicas passaram a se tornar algo rotineiro a sala de espera começou a ser enxergada com outras cores, de outra forma por mim. Passou a ser um local onde encontrava pessoas em situações semelhantes à minha, e com muitas histórias para contar. Acho que é ao mesmo tempo uma zona de conforto e desconforto para quem está ali. Conforto por saber que estamos todos no mesmo barco, calçando os mesmos sapatos, mas por outro lado um certo desconforto por estarmos todos de certa forma expostos.

Encontrei muitas pessoas públicas, atores e diretores de tv e teatro, que nunca imaginei serem portadores, outros que já sabia serem há anos e estavam ótimos. Conversei com algumas pessoas que me deixaram um pouco assustado e outras que exalavam vida.

Certo dia encontrei uma senhora de uns quarenta e poucos anos e começamos a conversar. Nessa consulta, assim como em muitas outras, fui com a minha mãe, que me lembro ter elogiado a pele dela, pois tinha um aspecto realmente muito agradável. Após alguns minutos de conversa ela contou a sua história com a AIDS:
Casada, marido militar, com filhos. Um dia o marido começou a adoecer e foi internado - se não me falha a memória com pneumonia - após exames e mais exames, fora diagnosticado com AIDS. Ele havia "pulado a cerca" e contraiu o vírus. Ela, então, fez o exame e se descobriu contaminada pelo marido. Imagino que deva ter sido uma situação bastante conflitante, mas acho que tudo passa a ter outra perspectiva. Ver o homem que ela amara e ainda amava muito doente, mesmo se sentindo traída, fez com que ela deixasse a questão da traição de lado para tratar do marido, e pai dos filhos. O caso dele, obviamente, era mais grave do que o dela, afinal ele só fora diagnosticado quando já havia doenças oportunistas, enquanto ela começou a se tratar antes, com o resultado positivo do exame.
Moradores de uma vila militar, ela contou que todos os vizinhos sabiam da situação e tinham uma convivência ótima, sem maiores preconceitos.

Achei ela de uma grandeza enorme. Não encontrei mais, porém será alguém que sempre irei admirar.

Outras pessoas falavam de suas histórias, algumas positivas, outras negativas, contavam os remédios que tomavam, alguns com efeitos colaterais desagradáveis, me traziam novas informações.

Uma outra paciente com quem eu conversava veio me perguntar se eu tomava remédios. Respondi que não. Para que?! Fui bombardeado com tudo o que não queria nem precisava ouvir.
O que escutei foi que ela tinha percebido isso, afinal de contas eu não tinha o "perfil".
Sem dúvida alguma estava tratando com alguém que não estava passando por um momento bom, ou que tinha algo de pessimista.

Me disse que pelo meu corpo (sempre fui meio neurótico com isso, independente do HIV) não parecia tomar remédios, pois não apresentava sinais de lipodistrofia. Palavra desconhecida no meu vocabulário até então, e que ela fez questão de me apresentar.
Pelo fato de ter a barriga "seca" (na época bem viciado em academia, passando horas por dia nela) e pernas grossas (genética + exercícios) eu não tinha esse "perfil". De acordo com ela, com o início da medicação as pernas afinavam e a barriga inchava, e por mais que ela malhasse nada fazia aquilo mudar.

Obviamente me assustei e, quando chegou a minha vez de ser atendido, fui buscar esclarecimentos, afinal a informação é nossa maior aliada!
Vi que as coisas não eram esse bicho de 7 cabeças que havia sido pintado e me tranqüilizei mais uma vez.

É muito complicado entender os processos que ocorrem conosco, por isso acho a terapia uma ferramenta de valor inestimável. Mais difícil ainda é entender o que ocorre com os outros, principalmente se não os conhecemos. Pré-julgar é algo da natureza do ser humano mas que penso dever ser combatido.

Como disse acima, essa paciente que me deixou assustado, não estava passando por um momento bom ou tinha algo de pessimista. Não sei o que se aplica, afinal não a conheço melhor, porém tenho certeza de que é alguém que precisa ou estava precisando de ajuda, assim como todos nós, independente de doenças, precisamos algumas vezes ou muitas.

Não posso dizer que todo dia é uma maravilha, mas que aqueles que não o são passam, e outros menos ruins, bons ou mesmo maravilhosos podem vir na manhã seguinte.

A questão é: o que posso fazer para melhorar isso? Aplicando-a a nós e aos outros.

Aproveitando a deixa da dificuldade do conhecimento do ser humano, posto aqui o trecho de mais um livro que adoro para aqueles que se interessem e gostem de uma boa leitura:

"Um admirável fato que deve servir de matéria para reflexão: todo ser humano é criado para constituir um profundo segredo e mistério para os seus semelhantes. Sempre que entro numa grande cidade à noite, considero com solenidade que todas aquelas casas escuras, encostadas umas às outras, encerram segredos; que cada cômodo de cada uma delas tem seu próprio mistério; que cada batida de coração das centenas de peitos que ali se reúnem é, em algumas de suas elucubrações, um enigma impenetrável mesmo para o coração que lhe fica mais próximo! E algo da hediondez das coisas, a Morte inclusive, é atribuível a isso. Da mesma forma, não posso virar as folhas desse livro escolhido, que amei e em vão espero, um dia, ter os vagares para ler até o fim. Também não posso olhar nas profundezas dessas águas insondáveis, onde vislumbrei, a uma luz precária, transitória, tesouros escondidos e mil outras coisas submersas. Estava escrito que o livro se fecharia de um golpe e para todo o sempre, como que movido por uma mola, quando eu lera dele apenas uma página. Estava escrito que a água se petrificaria em gelo eterno, mesmo quando a luz lhe batia de chapa na superfície, e eu, na praia, tudo ignorava. Meu amigo é morto, meu vizinho é morto, minha bem-amada, a eleita de minha alma, é morta. É a inexorável confirmação e perpetuação do segredo que sempre esteve escondido na personalidade deles e que eu mesmo carregarei na minha alma até o fim da vida. Haverá em algum dos cemitérios desta cidade por onde passo, dentre os que dormem, alguém mais inescrutável do que são os atuais habitantes para mim, no mais íntimo da sua individualidade, ou do que eu mesmo sou para eles?"



Descrição: A narrativa de Um Conto de Duas Cidades - que se refere a Londres e Paris - tem início em 1775, quando começam a germinar os movimentos que culminariam na Revolução Francesa. Em meio a grandes injustiças e abusos por parte da nobreza, os camponeses e artesãos conformam-se com as injúrias, sabedores de que o tempo da vingança está próximo. Considerado um clássico da literatura inglesa do século XIX, Um Conto de Duas Cidades trata ao mesmo tempo da realidade da Inglaterra e da França revolucionária. Dickens toma como ponto de referência a Revolução Francesa para apontar os problemas sociais e políticos da Inglaterra, pois temia que a história se repetisse em seu país quando escrevia o romance.

Título: Um Conto de Duas Cidades

Autor: Charles Dickens

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