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positivosim@gmail.com Sou um cara normal, que contraiu o HIV em uma relação homossexual monogâmica (ao menos da minha parte). O resto vai ser postado aqui nesse blog...
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sexta-feira, 19 de março de 2010

Vivendo no Anonimato

lInicio esse post pedindo desculpas às pessoas que me escreveram e não obtiveram respostas. Saí de BH e voltei ao Rio de Janeiro. Isso demandou tempo para a mudança física e de hábitos.
Estava sentindo uma imensa falta dos meus amigos, família e de minha cidade natal. Meu trabalho, acredito, já tinha se esgotado no que tange à realização profissional e estava na hora de buscar outras oportunidades.
Foi um imenso aprendizado, a primeira vez que morei sozinho, paguei minhas contas, e gozei de uma independência bastante prazeirosa, sem preocupações com as preocupações alheias, fazendo o que bem entendia.
Escolhi esse título, pois reflete alguns aspectos do que espero conseguir expressar aqui. Primeiramente o anonimato óbvio: em Belo Horizonte (e o horizonte realmente é belíssimo ao entardecer, deixando o céu com uma cor alaranjada, típico entardecer do cerrado, que é algo de tirar o fôlego), pois lá ninguém, com exceção do meu amigo, e chefe, sabia que eu sou HIV positivo. Agora voltando ao Rio, sei de várias pessoas que sabem da minha condição, para quem eu sequer contei. Em segundo lugar pois tive uma grande perda nessas semanas.
Um amigo fantástico morreu há cerca de duas semanas. A empregada o encontrou morto no chão de casa. Nasceu no mesmo ano que eu, mas sequer havia completado os 33 anos.
Ele teve uma vida bastante difícil, ainda que tivesse grandes facilidades, que a maioria das pessoas não têm. De uma grande beleza, inteligência fora do comum (costumava se entediar dos cursos que fazia, pois nenhum sera um grande desafio, acabou não completando nenhuma graduação), e carinho imenso para muito poucos. Quando digo poucos, me refiro facilmente a menos de dez pessoas, pois para as demais ele não fazia a menor questão de ser agradável.
Felizmente eu fui uma das poucas pessoas que teve o prazer de receber o carinho de uma pessoa tão privilegiada e ao mesmo tempo tão deficiente na área emocional.
Viveu e morreu em anonimato essa pessoa que tinha tanta coisa para dar ao mundo.
Acredito que se tivesse tomado o rumo da medicina, teria descoberto a cura para alguma doença, se tivesse caminhado para o ramo das letras, venderia milhares de livros, na arquitetura teria criado estruturas inimagináveis. Contudo, por conta de vícios, não deixou nada além de lembranças e saudades para poucas pessoas.
Acabou no anonimato. No pior dos anonimatos, pois alguns amigos que tínhamos em comum só souberem dizer que já esperavam por isso e coutras coisas do gênero. Vai ser lembrado como aquela pessoa perdida na vida, que não chegou a executar nada, sem contribuições, vai virar um “lembra daquele cara drogado e alcoolotra?”. Horrível dizer isso. Para mim nunca terá essa conotação, mas é a realidade de muitos.
Passamos muitas coisas juntos, muitas coisas indefinidas porém intensas. Ajudei sempre que pude e por um tempo me culpei, mas cheguei a conclusão clichê de que “não é possível ajudar quem não quer ser ajudado”, então sei que fiz o que poderia ter feito.
É a segunda amizade que perco precocemente em dois anos. Com isso penso nos amigos em comum, que sabem que eu sou soropositivo e ficaram em pânico na época que descobriram. Já fazem uns 9 anos, eu acho, que descobri, contei aos meus amigos, e nunca imaginei que perderia alguns deles enquanto eu continuaria com a saúde perfeita, sem ter que tomar remédio algum.
Semana que vem vou à minha médica e amanhã tenho resultado de novos exames. Assim saberei se continuo sem necessidade de remédios.
Procuro fazer coisas que me realizem como pessoa. Meu último trabalho foi coordenando um dos maiores programas sociais do país, e agora estou caindo novamente para os ambientais. Quero deixar alguma coisa, sair do anonimato. Quando digo isso não falo de ter nome reconhecido, mas de fazer alguma coisa significativa para outras pessoas, ao invés de buscar o hedonismo e autosatisfação.
Vi hoje um filme que me lmebrou um pouco do que passa por mim no momento, onde uma mulher encontra um sentido em sua vida realizando as façanhas da vida de outra. É muito bacana e vale ver:
Julie and Julia
2009
julie_and_julia
Baseado em duas histórias reais, o filme intercala a vida de duas mulheres, Meryl Streep (Julia Child) e Amy Adams (Julie Powell) que, apesar de separadas pelo tempo e pelo espaço estão ambas perdidas, até se descobrirem através do amor e da paixão pela culinária.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lamento a perda do seu bom amigo. E que lástima ele não ter podido realizar as coisas maravilhosas que tinha dentro de si! É tão fácil não se conhecer e perder o rumo...

Mas parece que você está encontrando seu caminho. Admiro seus projetos altruístas, e te desejo o maior sucesso e satisfação. Abraço,
da sua amiga anônima

Positivo Sim disse...

Obrigado!!!
Abraços

Flor disse...

Entendo bem essa questão do anonimato. No meu caso é o contrário: aqui em Brasília, onde moro agora, as pessoas já sabem da minha hepatite C (apareci no jornal no Dia Mundial da Hepatite no ano passado). Mas em Porto Alegre, minha cidade natal, a maioria não sabe.

Lançarei um vídeo nas redes sociais no Dia Mundial da Hepatite desse ano - 19/05 - cuja idéia é mostrar que, como a aids, a hepatite também não tem cara. Aí as pessoas vão ficar sabendo. Dá um medinho...

Positivo Sim disse...

Admiro muito a sua coragem Flor!
Acho muito bacana, mas já pensei muito a respeito e tomei uma decisão, ao menos por enquanto, de que isso é algo que diz respeito somente à minha pessoa.
Parabéns e abraços