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positivosim@gmail.com Sou um cara normal, que contraiu o HIV em uma relação homossexual monogâmica (ao menos da minha parte). O resto vai ser postado aqui nesse blog...
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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dia Complicado

Hoje foi um dia complicado.
Coincidentemente, logo após a última postagem, onde escrevi sobre o meu irmão, as coisas se complicam.
É impressionante como as situações se repetem. Quando ele veio me confidenciar que era homossexual, virei o melhor irmão do mundo, me tratava muito bem. Contou apenas para mim, começou a ter comportamentos que eu não aprovava e fazia questão de apontar isso, afinal era eu quem sabia, fora os amigos que tinham a mesma idade e experiência de vida zero. Não era uma posição que me agradava, mas o que iria fazer?
Faço questão de fazer uma pausa aqui para dizer que não se trata do que chamo de síndrome de coitadinho, já disse anteriormente que tenho horror a isso e me recuso a cair nesse estereótipo.
Ocorre que, passado um tempo, após a família toda saber, principalmente depois que meus pais passam a saber, cada um de uma forma, começaram as patadas, e eu deixei de ser o irmão amado para ser o pior dos irmãos. Passa um tempo e ele começa a não falar comigo, me xingar, me maltratar, como ocorreu quando eu estava morando em BH, só recebia patada atrás de patada, olhares revirados e assim por diante, muito desagradável, não havia uma palavra amigável.
Agora o mesmo ocorreu: quando sentia medo de contar para as pessoas, me chamou para a terapia, fiquei lá por duas horas, apoiei no que podia, fiz meus apontamentos, pois não senti firmeza na decisão, porém muita imaturidade, contudo sem demonstrar preconceito algum. Vou dizer agora em um momento de desabafo que meu ouvido virou penico, pois ele não parava de me dizer as coisa mais absurdas, criticando tudo o que fosse relacionado às questões estéticas de quaisquer pessoas, com as conversas mais fúteis, mas agüentei firme.
Agüentei isso tudo, que não é fácil para carregar sozinho, e na semana que ele conta para os meus pais e minha irmã, o ciclo se repete! Passo do “ótimo” irmão e viro o alvo da raiva dele. Resultado: minha irmã estava falando com meu irmão, e ele estava irritadíssimo, dizendo que odiava a família, bla, bla, bla. Infelizmente eu  havia deixado a minha porta aberta pois estava de saída, e o quarto dele fica ao lado do meu.
Para tentar melhorar a situação falei para ela deixar ele quieto e sair do quarto, pois estava questionando sobre emprego e mais outras implicações relacionadas a transexualidade.
Nem sei o que ele entendeu... De repente fui alvo de milhares de desaforos e agressões e me vejo com a irmã no meio dos dois e eu recebendo arranhões diversos a ponto de ficar com o braço todo ensangüentado.
Sei que fiquei com uma raiva absurda e devo ter dito as maiores barbaridades, pois tive que agüentar essa historia, ir no terapeuta com ele, já tendo os meus problemas, e não foi nada fácil, mas de repente passo a ser um irmão terrível. O detalhe é que eu é que sou o egoísta na visão egóica dele, sendo que amanhã tenho que fazer meus exames e os últimos não estavam bons.
Sei que para minha mãe e pai é difícil, muita coisa para absorver em pouco tempo e acho que dentro dos limites lidaram muito bem. Fico impressionado como todos se culpam, até mesmo minha irmã. É o típico pensamento que não leva a lugar nenhum.
Ele está perdido coitado, tem pensamentos mágicos. Acha que vai resolver com uma operação e tratamento. O psicólogo já entrou em contato com um psiquiatra do SUS que faz o tratamento gratuito, com psicólogos e assistentes sociais. Meus pais disseram que vão com ele, mas o teimoso começou a tomar remédios, que o terapeuta desaconselhou e o próprio psiquiatra, via terapeuta, disse o mesmo, porém ele não para.
Ele vem com diálogos prontos colhidos da Internet, de leigos como ele, tomando remédios pesquisados na Internet e não prescritos por médicos. Manipula as informações de uma forma absurda e fantasia de forma mais absurda ainda...
Acha que vai ficar com cara de mulher, jeito de mulher e que a vida será um conto de fadas, que ninguém vai perceber nada, vai encontrar o príncipe encantado, casar e o marido sequer vai saber... é praticamente isso na cabeça dele... e que ainda nem vai precisar trabalhar, pois não consegue se imaginar em nenhuma profissão e vive dizendo: “a faculdade é a coisa que menos me importa agora”. E isso sai da cabeça de um rapaz imaturo, com imagens de seriado americanos como “The OC” e “Gossip Girl”, querendo viver com todo esse glamour hollywoodiano, que sequer fez um trabalho comunitário na vida e tem verdadeiro horror a lugares mais simples. Na verdade não consigo entender, como pessoas tão diferentes podem ser irmãos (não falo com uma gota de raiva, mas temos pensamentos e realidades muito diferentes).
Já dei voltas e voltas, mas no fundo a questão é uma: é fato que tenho uma doença crônica (acho que lido com isso da melhor forma que poderia lidar, sem auto-piedade), e devo procurar me estressar o mínimo possível pois é inimigo direto da imunidade. Amanhã cedo faço meus exames e acredito que tudo tem limites. Cheguei no meu!
Não digo que nunca mais vou falar com ele, mas no momento preciso focar em mim. São muitas mudanças.
Antes, com todos os problemas que tinha, minha preocupação era com as minhas contas e só, estava em outro Estado, vivendo na minha casa. Agora absorvo os problemas do meu irmão, da minha avó, e os dele não são nada simples, e como bem pontua o terapeuta, ele não é nada maduro para saber lidar. Nós também não sabemos, pois é um campo onde não temos a menos experiência. Porém eu já havia exposto a ele, que não é nada fácil para mim e que eu tenho os meus problemas, e que tenho um problema de saúde sim, e que é um problema que vai me acompanhar a vida inteira. Mas a maturidade ali está longe de chegar, portanto acho o mais certo no momento me afastar, ainda mais se já começou o processo novamente das patadas e de focar a raiva em mim agora que já expôs para os demais da família.
Sinto como se eu fosse uma ponte provisória que ele cuida até poder passar através, para o outro lado, e lhes digo que a sensação não é nada boa, pois além de ser descartada, a ponte depois de usada é pisoteada, e se a ponte já tem um problema crônico, o pisoteamento pode acarretar em ter que ficar sendo remendada para o resto da vida uma vez que ela se partir. Espero que não chegue a esse ponto. Portanto prefiro me afastar, nem que seja por um período para uma restruturação.
Não sei se esse post saiu extremamente confuso ou se fez algum sentido, mas espero que ajude a exorcizar e, quem sabe, a auxiliar alguém que passe por alguma experiência semelhante de alguma forma.
Uma boa noite a todos e um bom exame para mim amanhã.

4 comentários:

Anônimo disse...

OI! É, realmente. Lendo esse post percebi q focar nos problemas dos outros, realmente, não é uma experiência boa. De repente no começo da descoberta da doença como forma de fuga (...). É melhor vc se ausentar um pouco desse aúe todo. Deve estar sendo bem pesado! Espero que melhore!
Outra coisa que queria compartilha com vc: Desde q descobri, eu me taxando de doente, impotente e mimimi. A cada dia que passa, a cada noite, a cada vez q repouso minha cabeça no traviseiro eu fecho os olhos e me pergunto: se alguma vez do dia consegui não pensar no assunto "HIV"! Parece que tudo isso se tornou um monstro pra mim, sabe? Acho que devo estar no processo de assimilação do bixinho e minha vida.
Penso em contar pra minha melhor amiga, mas depois não. Não sei com que olhos ela irá me olhar, não sei a reação - ela sempre foi preocupada comigo em relação a isso-.
Hehehehe só rindo mesmo pra levar a vida!
Como sempre, adorando teu blog!
Preciso ainda assistir os filme q recomenda em seus posts! DEvem ser divínos!

Beijos, G.

Positivo Sim disse...

G,
é assim mesmo.
Acho que demorei alguns anos para passar um dia sem lembrar que tenho um vírus "passeando" pelo meu organismo, mas acontece!
Tem dia que você nem pensa no assunto.
É uma questão limitante, pois ficamos presos a médicos, exames de tempos em tempos, etc. Assim não há aquela liberdade de um dia resolver correr atrás de uma coisa louca e se tornar missionário num programa social do outro lado do mundo :-) (falo isso, pois é a minha cara). As coisas tem que ser sempre planejadas, mas é a vida e aprendemos a lidar.
Bjs

wanderlust disse...

nossa, estou estarrecido com esse depoimento. nunca imaginei como seria passar por uma situação dessas, imagino como deve estar sendo difícil para você e sua família lidar com tudo isso. eu convivi com transsexuais por um tempo e sinto que há uma grau muito grande de agressividade que se expressa pelo medo de não ser aceito, mas eles mesmos dificultam muito o processo. e há uma visão da parte de muitos transsex de que eles (elas) são grandes mártires, as verdadeiras guerreiras que foram até o fim, como se os gays não-transsex ficassem no meio do caminho por medo ou covardia.
espero que tudo corra bem e que todas as decisões sejam tomadas com muito equilíbrio e discernimento.
focalize na sua vida e suas necessidades, guarde sua energia para agir de maneira solidária quando necessário, mas não se envolva demais.
boa sorte.
bj
c

Positivo Sim disse...

Wanderlust,
na minha família minha mãe compreende e apoia, mas mãe é mãe...
O problema que vejo e minhas irmãs também, pelo que conversamos, é o fato de não ser uma pessoa com maturidade e vivência suficiente para tomar uma decisão tão séria, que acarreta em uma cirurgia complicada e dificilmente revertida.
Não vejo o lado de "verdadeira guerreira" nem agressividade como as experiências que você citou, mas sim um "ninguém sofre como eu sofro", algo de se martirizar e vitimizar.
A falta de maturidade realmente é um problema, pois não escuta nada, acha que sabe tudo. Vai fazer 20 anos, mas está com atitude de adolescência tardia, a arrogância dos adolescentes...