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positivosim@gmail.com Sou um cara normal, que contraiu o HIV em uma relação homossexual monogâmica (ao menos da minha parte). O resto vai ser postado aqui nesse blog...
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Reestruturação

Ultimamente ando num momento de reestruturação em todos os sentidos. Acredito que já tenha falado da dificuldade de ter me mudado de volta para minha cidade natal, mudando provisoriamente (sem prazo definido) para a casa dos meus pais e com meu emprego atual sendo home office.
Tudo fica complicado, pois a independência, até então total, foi completamente embora.
Voltei a ter outras responsabilidades que não considero, talvez sendo egoísta, serem minhas, como com a minha avó e meu irmão, afinal é minha avó e irmão, e não mãe e filho. Um dia terei a responsabilidade para com a minha mãe. Será que sou tão egoísta de não querer essa responsabilidade nesse momento da minha vida?
Como trabalho em casa os dois me chamam como se não trabalhasse. Minha avó para as coisas mais bobas. Geralmente na hora que posso ir, pois estou no meio de uma tarefa quando chama meu noime, já nem lembra o que era (normalmente é uma bobagem, como esquecer algum comando no computador que pode esperar, mas para ela é a coisa mais urgente do mundo). Já para o meu irmão são  questões mais sérias que até então descarregava em mim e eu não podia falar com ninguém. Realmente um desespero.
Outras questões são o falto de sentir falta do ambiente de trabalho, de uma “outra vida” fora de casa, sair e conversar com outras pessoas em um outro ambiente, experiências novas e troca de vivências no mundo real, bem como algo absurdo que sentia no meu trabalho antigo: fazer a diferença. Como coordenador de um grande programa governamental eu trabalhava gerenciando a equipe central, mas também na ponta, e via o resultado nos alunos, via que EU conseguia fazer a diferença na vida de diversas pessoas. Acredito que não exista nada que seja tão satisfatório quanto isso.
Não estou deprimido de forma alguma, mas ando cansado, aliás exausto!
Fiz uma postectomia (operação de fimose), e a recuperação é um saco, mas agora já passou mais de um mês e estou me acostumando com a “nova realidade”, mas com isso tive que suspender os exercícios, que já estavam parados desde a reação da vacina do H1N1 coladas em uma viagem.
Voltei, com direito a acompanhamento de nutricionista e personal para dar uma turbinada no início e ver se esse desânimo passa, pois assim não dá para ficar, o negócio é me reestruturar e levantar. Depressão não tem vez, senão a imunidade baixa e aí é só ladeira abaixo. Então é respirar fundo e enfrentar. As coisas melhoram.
Tenho que aprender a lidar com as questões familiares enquanto continuo a morar com a família.  Contudo, é um trabalho diário e complicado.
Minha avó é jovem, com uma saúde de ferro e simplesmente resolveu se enclausurar no quarto dela e não mais sair de casa, aliás mal sai do quarto, quer que levem tudo para ela, na hora que ela quer. Ficou um tanto o quanto egocêntrica e tudo para ela é urgente, sem se dar conta que além de os outros terem suas vidas, têm seus trabalhos, prazos e várias coisas importantes a fazer. Difícil de lidar, mas tenho que aprender da melhor forma possível.
Já em relação ao meu irmão o problema é bem mais complicado, ao menos tem uma carga maior em cima de mim. Pós adolescente, chegou um dia para mim e pediu que fosse com ele ao terapeuta. Obviamente aceitei, pois já sabia que era homossexual e percebia que havia sérios problemas de auto-estima. Durante a sessão veio à tona a questão de transexualidade. Não fiz nenhuma expressão de surpresa e levei tudo numa boa, só fiz questão de colocar a minha posição. Deixei bem claro que da forma que ele se preocupa tanto com o que as pessoas pensam, que isso seria um grande problema, que o trabalho seria outro devido ao preconceito, pois não há uma pílula mágica que vá fazer com que ele se “transforme em uma mulher”, na maioria das vezes, por mais que se façam plásticas e se tome hormônios, a voz e algumas outras características denunciam. Além disso, uma vez que começasse um tratamento, não é um caminho com retorno.
Andava carregando tudo isso nos ombros, mas finalmente nesse final de semana ele conversou com a minha mãe, e hoje foi à terapia com ela, minha irmã e meu pai. Não sei o que foi conversado, mas me sinto aliviado.
É realmente impossível cuidar dos outros, se os problemas alheios te afetam diretamente e ainda temos os nossos. Não dá para cuidar de todos sem cuidar de nós.
Colocando tudo isso para fora lembrei dos filmes abaixo, um uma comédia francesa engraçadíssima (lembra a minha avó, sem a perversidade de Danielle, mas com a típica chantagem emocional), o outro um drama fantástico (por conta do meu irmão, que nem de perto tem a certeza da personagem):
Tatie Danielle 
tatie danielle

Viúva desde o fim da guerra, Danielle (Tsilla Chelton), aos 80 anos, tem muita vontade de viver para prolongar o único prazer que ainda lhe resta: praticar diariamente todas as perversidades de que é capaz contra sua empregada Odile; fazer seu cão de estimação atacar qualquer pessoa negra; comer os doces que o médico proibiu; e insultar todos os mendigos que encontra pela rua. As maldades de Tia Danielle ficam ainda mais engraçadas quando ela recebe a visita do único sobrinho. Jean-Pierre (Eric Prat) e faz chantagem com ele: ela lhe deixará sua bela casa de campo como herança, desde que Jean-Pierre a leve para morar com ele, em Paris. Ela se torna tão insuportável que o sobrinho decide contratar Sandrine (Isabelle Nanty) para tomar conta da megera. Tia Danielle tenta fazer dela mais uma vítima, mas tem uma grande surpresa: Sandrine também adora cometer suas crueldades. A guerra está declarada, e a mais perversa vencerá... Uma comédia como há muito não se via no cinema mundial!
Transamerica
transamerica,1
Bree é uma bem ajustada transexual. Ela nasceu como Stanely, geneticamente um homem, mas ela dará o último passo para se tornar a mulher que sempre sonhou, até descobrir que é o pai de um garoto de 17 anos. Com medo de lhe contar a verdade, ela embarca em uma jornada que pode mudar suas vidas e trazer a tona a verdade que os une.

4 comentários:

Anônimo disse...

Oi! Realmente, lidar com os problemas dos outros é complicado. Requer prática e paciência, mas acho q é uma forma de nos ajudar tmb. Desde q descobri ser soropositivo, não contei para ninguém por motivos X e sempre ouço os problemas dos outros. Pode parecer meio cruel, mas assim eu consigo perceber q o meu problema não é tão brabo assim e ir em frente! Tenho certeza q esse momento q vc ta passando vai trazer benefícios! E além disso, a cabeça não fica parada um min se quer, resultando em não devaneios tristes etc!
Continue escrevendo!
Beijos, G.

Positivo Sim disse...

Obrigado G.,
Sem dúvida alguma quando vemos problemas maiores do que os nossos percebemos que os nossos não são tão brabos, assim como vc mesmo disse, mas acredito que já tenha escrito aqui também que não é pq os outros passem por coisas piores que a nossa dor deixa de existir. Sofrer nós e todos sofremos, o que não podemos e deixar que a autopiedade, a síndrome do coitadinho tome conta.
É ótimo tomar conta dos outros, mas não podemos esquecer de nós.
Já cuidei dos outros para não pensar em mim, e já cuidei dos outros e me sobrecarreguei. Nenhuma das duas situações é saudável.
O ideal é cuidar de mim e, estando bem comigo, poder cuidar dos outros com a devida atenção, sem que isso se torne uma distração.
Beijos

wanderlust disse...

olha, identifico-me demais com seu depoimento. eu entrei para um grupo de 12 passos chamado co-dependentes anônimos, que lida exatamente com essas questões de como manter o foco em si e não se disponibilizar tanto para os outros.
adoro esse filme da Tia Danielle, outro dia mesmo estava falando nele.
bj
c

Positivo Sim disse...

Bacana esse grupo wanderlust. Tenho uma amiga para quem vou indicar, pois ela é exacerbadamente assim, talvez até para não ter que se focar...
O filme é uma delícia, divertidíssimo. Vou achar onde ele está e rever.
Bjs